MEMÓRIAS



O pensamento é a constante mais veloz do nosso Universo.

Sardinha assada em Alfama

Como me estonteia

Recebemos a notícia com nota de alguma tristeza. O nosso pai tinha que se deslocar a Viena de Áustria, pela primeira vez em viagem de negócios, habituados que estávamos à sua constante presença. A minha própria mãe não conseguiu esconder uma soma de nervosismo. O indício da partida jazia no chão do hall da entrada; a mala de substanciais proporções em rígida pele de elefante; o saco de lona beje em forma de gomo invertido de roliças pegas, ostentando a garrafais letras azuis "Wagon-Lits". Olhei-os com desnutrida contemplação não podendo evitar o desprendimento de uma desconfortável lágrima.
O interior do enorme edifício da Estação de Santa Apolónia escondia uma série de linhas cujos trilhos se emaranhavam até se perderem de vista. Alguns combóios estacionados perfilavam junto às gares num afã de aprestos. O Sud-Exprèss com transbordo em Paris ocupava a linha central. Empregadas de limpeza ultimavam os preparativos zelando pelas carruagens-cama, enquanto no vagão-restaurante eram repostos mantimentos e atoalhados. Operários da companhia testavam o toque das ferragens dos chassis com largos batimentos de compridos martelos. O frio do Inverno obrigava as pessoas a circularem presas aos seus pesados sobretudos e agasalhos menores. Bagageiros apressados deslizavam os seus carrinhos de empurrar atafulhados de malas, sacos e demais bagagem.
Por fim a composição atrelada à sua negra e comprida locomotiva emitiu dois silvos que ecoaram acompanhados de uma enorme lufada de fumo, demoradamente vomitado pela sua quase incandescente chaminé. O sinal do arranque fez aconchegar com maior sofreguidão viajantes, parentes e amigos, que dificilmente se despegavam dos longos abraços e beijos. A vagarosa lentidão do arrastar da composição ganhava pouco a pouco o andamento da força do vapor e as silhuetas dos passageiros assomados às janelas atiravam acenos até o comboio se esvair ao longo da primeira curva acentuada.
Esfrangalhados e de peito oco volvemos a casa mergulhados num preito de desânimo. A falta à escola da parte da tarde e os afazeres domésticos imperaram na demora dos arranjos pela moleza do abatimento. Cartas de fino papel enviadas por correio aéreo e postais de quando em quando vinham pontualmente colmatar o sentimento da saudade. Vistas panorâmicas da metrópole austríaca indicavam-nos o rigor invernio mostrando monumentos, avenidas ruas e jardins pejados de neve. As breves descrições do meu pai acentuavam a minha satisfação que com embevecimento lia a sua tão peculiar caligrafia.
Os preliminares para o jantar melhorado, assinalaram festivamente o regresso do nosso pai. Os candelabros de acesas velas e o aroma do cozinhado faziam adivinhar as possíveis inúmeras histórias que ele traria para nos brindar pelo decorrer da refeição. Terminada a sobremesa, como marca de boas vindas, cada um de nós ditou um poema que afanosamente tinha decorado por sucessivas semanas. A mim coube-me recitar muito alinhadamente "Dia de Anos" de João de Deus:
"Com que então caiu na asneira / De fazer na Quinta-feira / Vinte e seis anos, que tolo! / Ainda se os desfizesse / Mas fazê-los não parece / De quem tem tanto miolo! . . . . . . . . . ."